segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Concretude

O relógio marca onze horas e vinte seis minutos de uma quinta-feira qualquer, me desloco com minha caneca repleta de café e um maço de cigarro barato para a janela de minha residência. Observo atentamente a paisagem na sua mais bela concretude cinza e os picos de luz dentro das habitações em todo meu entorno.

Acabo de me recordar da minha adolescência, período da puberdade em que a maior preocupação consistia somente na responsabilidade escolar. Remeto-me a momentos que me marcaram nesta sombria fase, e me pego lembrando de uma série que assiduamente assistia.

Tratava-se de quatro mulheres em seus trinta e pouco anos que buscavam um relacionamento sólido numa cidade assim como a que habito. Naquele período visualizava o enredo como problemas de relacionamento utópicos, que ninguém se decaia com aquelas situações: relacionamentos desfeitos por falta de diálogo, por projeções subjetivas malogradas, desinteresses mútuos. Relações nada concretas.

A ideação de concretude, analisando, atravessa os sentimentos. Cada dia que passa, as relações, e não me remeto somente as amorosas, possuem forma liquida, que facilmente é escoado por um ralo qualquer.

A concretude experimentada na contemporaneidade traz a dubiedade, o exílio, a visão acinzentada.


Meio maço de cigarro já consumido, o café gélido, e experimento deduzir que a madrugada já se faz presente. Fecho a janela, deslizo as cortinas. Amanhã vivenciarei mais um dia em meio a paisagem concreta e esguia, sendo mais um proletário na esperança de contemplar um matiz não só pelos logradouros urbanos, mas na vida.