O
relógio marca onze horas e vinte seis minutos de uma quinta-feira qualquer, me
desloco com minha caneca repleta de café e um maço de cigarro barato para a janela de minha
residência. Observo atentamente a paisagem na sua mais bela concretude cinza e
os picos de luz dentro das habitações em todo meu entorno.
Acabo
de me recordar da minha adolescência, período da puberdade em que a maior
preocupação consistia somente na responsabilidade escolar. Remeto-me a momentos
que me marcaram nesta sombria fase, e me pego lembrando de uma série que
assiduamente assistia.
Tratava-se
de quatro mulheres em seus trinta e pouco anos que buscavam um relacionamento
sólido numa cidade assim como a que habito. Naquele período visualizava o
enredo como problemas de relacionamento utópicos, que ninguém se decaia com
aquelas situações: relacionamentos desfeitos por falta de diálogo, por projeções
subjetivas malogradas, desinteresses mútuos. Relações nada concretas.
A ideação
de concretude, analisando, atravessa os sentimentos. Cada dia que passa, as
relações, e não me remeto somente as amorosas, possuem forma liquida, que facilmente
é escoado por um ralo qualquer.
A
concretude experimentada na contemporaneidade traz a dubiedade, o exílio, a visão acinzentada.
Meio
maço de cigarro já consumido, o café gélido, e experimento deduzir que a
madrugada já se faz presente. Fecho a janela, deslizo as cortinas. Amanhã
vivenciarei mais um dia em meio a paisagem concreta e esguia, sendo mais um
proletário na esperança de contemplar um matiz não só pelos logradouros urbanos,
mas na vida.